Wednesday, July 28, 2010

A primeira carta.

Tinha dez anos quando aconteceu pela primeira vez. Mesmo com a pouca idade, mesmo não tendo tanta maturidade para compreender as coisas, ele se surpreendeu. Achava que seria mais velho quando, finalmente, acontecesse. Pelo menos era o que todos diziam.

Ele gostava de ir à praça do bairro, onde existia uma quadra de vôlei, e vê-la jogar. Ficava reparando na habilidade que ela tinha com a bola, e como levava a sério o esporte. Ela mandava instruções e todos obedeciam, mesmo se não concordassem. Ela era popular pelo bairro inteiro, e sem sombra de dúvidas a garota mais bonita. Talvez por isso, todos relevassem qualquer tipo de defeito mínimo. 

Ia ao mercado do bairro, e quando via que ela estava lá também, ficava ali próximo da prateleira, fingindo interesse em algum produto. Ele ficava mexendo no cabelo de forma quase obsessiva porque diziam que era o que ele tinha de mais bonito. E ele queria que ela dissesse o mesmo. Ia para a fila do caixa junto a ela, mesmo que não houvesse escolhido exatamente o que queria comprar, só para sentir se ela usava algum perfume.

Descobriu com ela a falta de concentração em coisas mundanas. Começava ali a dificuldade de pegar no sono imediatamente...algo que o atormenta até hoje. Descobriu com ela que poderia se dar prazer só de pensar. Descobriu com ela os amores inventados. Criava situações entre ele e ela, diálogos, declarações de amor...

E achou que já era o suficiente, e tomou uma decisão. 

Ele sabia onde ela morava. Às vezes, pegava a bicicleta e dava voltas no quarteirão só para ver se conseguia vê-la, nem que fosse por alguns segundos. Mas, dessa vez, ele queria que ela não estivesse na rua. Foi pedalando até lá, determinado, segurando com cuidado a carta em uma das mãos. A carta, que seria a primeira de muitas na vida dele. Foi diminuindo a velocidade gradualmente, e parou por completo quando viu a casa em que ela morava. O carro não estava na garagem, e a julgar pelas janelas fechadas, não havia ninguém. Não acreditando na sorte, foi correndo até a porta, e deixou a carta junto com as outras que o correio do dia havia entregue ali. 

Ficou por dois dias imaginando a reação dela ao ler o que ele havia escrito. Acharia estranho? Ficaria lisonjeada? Ofendida? Nem daria importância? Será que responderia? A resposta ele teve no terceiro dia. 

Era festa junina do bairro. Ele brincava de "polícia e ladrão" com alguns amigos. Começou a procurar em um local quase às escuras entre uma árvore e um carro estacionado. O que encontrou foi ela aos beijos com outro rapaz. Um rapaz bem mais velho. Foi o bastante para que ele percebesse todo o absurdo da situação. E seguiu com a sua vida. 

Quinze anos depois, ele vê a mesma garota, agora uma jovem adulta, no mesmo clube que ele frequenta. Vão fazer exercícios juntos. E a vontade de perguntar sobre a carta aumenta a cada dia mais nele. Ele só quer saber se a história, hoje, pode ser diferente.

André Marçal

2 comments:

samantha said...

É tentador pensar que podemos recomeçar uma história que ficou suspensa..

Soldier said...

Ok, agora eu quero saber o resultado dessa joça. Crie coragem e vá perguntar da bendita carta!

Isso é quase roteiro de um filme tipo 'Antes do Amanhecer'.