Sunday, September 21, 2008

Minha Loucura

"A razão de um único homem contra a razão de todos os outros já não é mais razão e sim loucura"

Era uma tarde típica da capital paulista, no calor insuportável de uma biblioteca pública sem ar condicionado (GOD!), eu estudava um texto de Otto Maria Carpeaux (quem?) sobre William Blake e acabei esbarrando com essa frase maravilhosa! Não pude deixar de esboçar um sorriso automático de profunda felicidade por uma concepção que na verdade já é tão exaustivamente explorada. Mas eu precisava daquelas palavras, da repetição das minhas certezas e dos meus princípios de garoto "out of place" e ficar meia hora refletindo, até me esqueci do meu costumeiro café das 15:40. Fiquei pensando no quanto eu poderia já ter aproveitado da minha "insanidade", dos meus devaneios e das minhas particularidades (grotescas e absurdas) como indivíduo! Mas o que eu mais fiz até agora foi ficar sofrendo por sobre elas, fui me deixar dominar por uma culpa de não ser um "bom cristão", por não conseguir ser minimamente "normal" pra ter uma vida adequada em sociedade. Apesar de ter passado em todos os exames psicotécnicos burocráticos da vida como, tocar um instrumento musical mediocremente; entrar numa faculdade pública; ter pelo menos três amigos por ano; conseguir razoavelmente lidar com um apartamento numa cidade como São Paulo (não sem ajuda), apesar dessas coisas básicas do dia a dia eu simplesmente sou completamente desvairado para a maioria das outras necessidades básicas de um cidadão do mundo moderno. E digo em todos os sentidos!

E olha que eu já tentei! Já tentei encontrar um emprego que se adequasse minimamente à minha situação socio-intelectual esperada, e já tentei permanecer num deles pelo menos o suficiente pra receber um salário decente. Mas a verdade é que eu sou uma mula pra qualquer atividade que peça o mínimo de praticidade e racionalidade instantânea, não sei mais a tabuada (estudantes de Letras!), nem conheço como deveria o mundo das finanças e dos impostos! Atendo o telefone e , apesar de o assunto do meu interlocutor ser extremamente sério não posso deixar de pensar em qualquer outra coisa menos no que ele está falando. Justo eu que sempre me achei tão apto para tudo isso! Mas a verdade é que sempre estive de lado! Sozinho com meus livros e minhas fantasias, e pior, através delas acreditei estar vivendo. Mas crescer é bem diferente! Crescer requer o toque! Requer ter na pele e na memória a verdade concreta das situações, e quando eu me deparo com elas, no susto e na ansiedade de quem desconhece o caminho e não tem um guia orientador, faço tudo atrapalhado, do meu jeito maluco! A minha convivência com esse novo mundo a ser explorado acaba se tornando muito única, diferente do que é para os outros, com meus próprios vícios e neuroses. Meu passado, minhas próprias experiências me tornaram o que eu sou, mesmo que estranho, diferente, inadequado, mas é a minha razão, a minha loucura! Vou começar a retirar dela o que pode me fortalecer, me destacar no mundo, sem medo de parecer ridículo.

Isso me lembra a teoria da Sylvia Plath de que "todos nós vamos morrer". Parece até um daqueles ditados populares que você ouve dos avós ou da vizinha e que, apesar de simples, parecem armazenar séculos de sabedoria real! Sempre esqueço disso, mas quando eu me lembro, percebo que há uma catarse profunda nessas palavras: "Dying is an art!". De súbito, mas só de súbito, ser "ridículo" é uma questão de vida!

Paulo E. Vasconcellos

Tuesday, August 19, 2008

Sumiço


A situação se repete com uma frequência um tanto assustadora.
Na rua; no shopping; em reuniões de família; no msn; orkut e em festas, a primeira coisa que dizem é que você está sumido.

E não existe nenhuma razão totalmente compreensível. Ou satisfatoriamente convincente.

Talvez seja esse receio de se conectar realmente com outra pessoa, apesar de você sentir essa necessidade mais forte do que nunca. Nunca se sabe as consequências disso. Ou pior ainda, a perda disso. E se você perder o controle? Sentir - se sem chão. Logo você, que nunca se permitiu o caos, a bagunça de sentimentos. As coisas sempre foram tão claras quanto preto e branco. Não é hora de tudo colorido.

É sempre essa ambivalência...caos ou o cosmos?

Talvez seja a auto - suficiência, essa coisa meio milagre e maldiçao ao mesmo tempo, em níveis completamente confusos. Às vezes, pessoas parecem tão interessantes em conversas de bar, em desabafos, em historias de vida. Mas, por tantas e tantas outras, não valem mais do que um bom filme, uma folheada em um livro interessante, ou uma música triste.

Ou talvez.....talvez seja condição de vida, a forma como você aprendeu a viver, a reagir diante tudo. Por mais que te cause repugnância, a idéia de que talvez você goste de ser assim não soa tão absurda.

Mas você sabe que ainda é cedo para afirmar isso. A juventude ainda não foi embora. A estrada é ainda longa.

E tudo o que você pode responder aos que te chamam de "sumido" é que, mesmo sendo verdadeiro, você sempre se pega pensando em todos os seus amigos, todos os dias, e em todas as pessoas especiais que cruzaram o seu caminho. E você se pergunta como estão, o que andam fazendo. E, por um instante que vale por uma vida inteira, se sente realmente abençoado e feliz por ter tido a oportunidade de ter conhecido todos eles: os sumidos e os presentes.


André Marçal

Thursday, August 07, 2008

Reencontro


Às vezes, o desejo é tão forte que parece até real. Imagino o nosso reencontro com todos os detalhes imagináveis. Seria em um local público. Um shopping, talvez. Aleatoriamente, em uma livraria, nos esbarraríamos. Já fiz o absurdo de imaginar até mesmo sua aparência física, quatro anos depois: a mesma altura que me impressionou na primeira vez que te vi; os mesmos cabelos lisos e negros; a beleza completamente natural do seu rosto, sem ajuda alguma de maquiagem ou algo do tipo. Eu te abraçaria, enquanto você ficaria na dúvida se faria ou não. Você provavelmente ficaria um pouco desconfortável, constrangida até, porque a primeira coisa que você se lembraria é da carta que te mandei. E que você não respondeu. Você me perguntaria se ando trabalhando na área que me formei. Eu responderia que não, mas que estava feliz na minha atual profissão. Te falaria de minhas viagens e planos de morar fora, e você ficaria feliz porque sempre soube que isso é algo que sempre quis fazer. E lá no fundo, você talvez começasse a pensar que eu, realmente, tenha mudado e amadurecido. E voce ficaria realizada. Me perguntaria, então, se eu estaria com alguém. Com a minha negativa, diria que qualquer pessoa com quem eu estivesse seria feliz. E você diria que eu era especial, mas nunca havia me dito antes porque não podia. Eu iria só olhar para você, sem palavras. Finalmente, num súbito de coragem, te pediria, se fosse possível, que nos encontrássemos outro dia para tomar um café e conversar mais. Diria que sempre quis saber mais sobre você, mas nunca tinha tido a oportunidade. Você, claro, hesitaria, e eu iria perceber. Talvez seu namorado (quem sabe, agora, marido) não fosse gostar da idéia. Mas, você aceitaria. Não com tanta convicção, mas ainda assim disposta a ir. E eu ficaria na expectativa quase torturante de que, talvez, por alguns momentos, você tenha sentido alguma coisa a mais por mim; que, talvez, pensasse em mim à noite (como eu costumava fazer), e que fantasiasse comigo (afinal, tínhamos tanta coisa em comum). Trocariámos telefones. Então, eu mencionaria a carta. Diria que queria conversar sobre ela. Nesse momento, eu poderia ficar até um pouco amargo. Ressentido, talvez. Você iria começar a tentar se justificar, mas sem sucesso. Para amenizar, diria que ficou emocionada de verdade quando a recebeu. Eu complementaria dizendo que sua colega havia me dito, realmente, que você chorou. E de novo, eu só te olharia. Você tentaria fugir do meu olhar dizendo que poderíamos encontrar no próximo sábado. Eu concordaria. Você iria se despedir com um abraço de verdade agora. Eu iria retrebuir. E esperaria ansioso o próximo final de semana.


Mas as coisas têm a tendência de nunca acontecerem como você planeja. Se te encontrasse por aí, provavelmente trocariámos no máximo cumprimentos de longe. Eu te perguntaria se ainda trabalhava no mesmo local, e ficaria paralizado e disfuncional demais para perguntar qualquer outra coisa. É por isso que tenho essa ambivalência em te rever. Talvez você não goste tanto da minha aparência hoje. Logo agora, eu tão fora de forma. Talvez você não aprove o que eu esteja fazendo com a minha vida. Você enxergava tanto potencial em mim. E talvez eu descobrisse que você me considerava, realmente, apenas um garoto. Garoto com cabeça de homem, mas ainda assim, um garoto. E seria vergonhoso demais. A primeira pessoa a quem me declaro...não, não.

E você iria embora. Sem carta. Sem telefone. Sem encontro. Sem futuro algum....Apenas aquela vontade de ter feito tudo diferente. E a dúvida se, algum dia, você terá coragem suficiente de fazer diferente.

André Marçal

Tuesday, June 17, 2008

Espelhos.



É essa sensação de que nunca é o suficiente...
Se converso com alguém, dizem que não conversei o bastante. Falam que sempre me mostro distante, mesmo se compartilho intimidades. Jamais é o suficiente. Querem sempre mais e mais. Querem o mais sórdido detalhe. A coisa mais embaraçosa que você fez. Quem você usou para se satisfazer. Talvez seja isso. Querem provar o quão canalha você é, ou vai ser no futuro. Depois disso, finalmente cria - se intimidade. Mas isso é realmente o que chamam de se conectar com alguém?

Se trabalho com algo do mais honesto, jamais é o certo para mim. Dizem sempre que posso muito mais. Que jogo fora o potencial que existe em mim. Me imaginam em situações de destaque que nem em sonhos dos mais megalomaníacos sonhei. Enxergam um uma inteligência, desenvoltura e ambição que sei que não possuo nem a metade.
É essa sensação de que o que faço nunca é o suficiente...

Talvez eu seja distante. Talvez peguiçoso. Talvez eu goste da forma como eu construi meu mundo. Talvez seja verdade que pessoas são como espelhos: enxergamos o que elas nos dizem.
Mas, sei tambem que espelhos podem se embaçar com facilidade.


André Marçal

Tuesday, May 27, 2008

Esquerda ou direita?


Pego o violão, toco alguns acordes tristes e me vejo em um palco, encarando milhares de pessoas emocionadas com a música que sai de mim. E acho que quero ser músico.

Escrevo alguns rascunhos no papel; ensaio alguma coisa nesse blog; tenho idéias mirabolantes dentro do ônibus, e chego a conclusão que o melhor é ser escritor. Afinal, há tanto ainda a se contar.

Assisto meus filmes preferidos pela enésima vez; revejo as atuações de atores e atrizes que admiro muito, e resolvo que o melhor é atuar. Expressar raiva e alegria através de um papel pode ser muito saudável. E reconhecimento é sempre bem vindo. Entretanto...muito mais divertido seria dirigir o elenco e todas as cenas. E ser diretor de cinema é a minha nova profissão. Até o momento em que eu percebo que muito mais tesão seria escrever toda a estória e personagens. Brincar de Deus por alguns momentos. E roteirista é o trabalho definitivo.

Mas...isso tudo soa muito trabalhoso e cansativo. E, além do mais, sempre existe a dúvida se realmente existe talento suficiente para realizar todas essas coisas. Está decidido: de agora em diante, vou ter uma vida normal. Um emprego comum de oito horas diárias. Voltar para casa, assitir TV e filmes no DVD. Casar e criar uma família. Nada muito impressionante, a não ser a tranquilidade de não ter que ser extraordinário todos os dias. É isso. Pronto. Vou dormir melhor essa noite.

Mas, amanhece o dia...e o que eu quero ser mesmo?


André Marcal

Tuesday, May 13, 2008

Viajar é viver


É pra ver o mundo ficando pequenininho da janela do avião; É sair correndo com a passagem na mão pra pegar o próximo avião (cena que você já viu dez mil vezes nos filmes); É tentar se sentir à vontade em uma casa que não é sua, mas vai ser por um mês; É dar voltas e mais voltas em um metrô estrangeiro; É pegar ônibus que você não tem a menor noção para onde vai; É se forçar ao máximo para pedir informações; É se forçar ainda mais (a níveis torturantes!) para puxar conversa com outros; É andar sem rumo em uma cidade desconhecida; É ficar horas admirando a natureza e beleza de parques maravilhosos; É observar hábitos e costumes de outras culturas.

É entrar no bonde que te leva ao metrô e ouvir pelo menos cinco línguas diferentes; É receber de presente um DVD - documentário sobre a "verdade" do 11 de Setembro de um motorista filipino; É conversar sobre Bob Marley com um autêntico jamaicano sentado ao seu lado no banco; É receber proposta de casamento de um tiozão de cinquenta anos, feita no ponto de ônibus; É ver como emos de verdade se vestem; É ir a pubs iguais aos dos filmes ingleses; É andar por ruas lotadas com copo de café na mão; É se viciar em café; É ser roubado em pleno país de primeiro mundo; É dar inveja à todas adolescentes por ter ficado a centímetros de distância do ídolo - galã delas; É assistir filme 3D no IMAX!; É ficar horas incontáveis em livrarias de três andares (e sem vendedores pentelhando).

É se ver, de repente, como o centro da atenção de asiáticos; É ser o alvo da obsessão / loucura de um húngaro,
stars wars maníaco, vestido de suspensórios e all star azul ; É ficar horas conversando dentro de um Café sem tomar nenhum; É assistir filmes e documentários maravilhosos em plena escola; É descobrir que você é querido e elogiado mesmo estando em outro país; É descobrir que pessoas vão ser sempre pessoas, não importa o lugar do mundo; É descobrir um novo hobby: fotografia; É descobrir que você possui características que jamais pensou possuir; É amadurecer; É se sentir confortável em momentos de solidão; É olhar fotos, quase um ano depois, e ter a sensação de que tudo aconteceu em uma realidade paralela.
É, enfim, se sentir vivo.

É pra tudo isso que viajar é preciso.





André Marçal

Sunday, April 13, 2008

Para: Alguém


Eu penso em você. Pensava com mais frequência. Mas, ainda me pego pensando em você no trânsito; no almoço; ouvindo música, dentro do ônibus; no trabalho... Eu ficava imaginando nós dois de mãos dadas pelos corredores dos shoppings, olhando vitrines. Porque a vida é feita de coisas pequenas assim: passar o tempo fazendo coisas insignificantes com quem voce gosta ao lado. Imaginava nós dois no cinema, rindo ou sofrendo com os personagens. Ou então decidindo com qual deles éramos mais parecidos. Imaginava a gente ouvindo uma música bonita dentro do carro, daquelas de cortar o coração. Ou então, daquelas que te dá vontade de sair pulando por todos os lados, com o som no último volume. Porque eu sei que você é assim: inteligente, com bom gosto e bonita. E foi essa combinação que me fez ficar pensando em você.
E eu ia à sua casa, sempre com alguma desculpa. Mas, na verdade, queria ver você, nem que fosse de relance. Às vezes, falava com você. Às vezes, não. E esse tipo de atitude deve ter te confundido e dado uma impressão errada sobre mim. Mas, eu não consegui evitar. Juro. É difícil uma pessoa que me deixa completamente sem palavras e reação. Logo eu, que me julgava tão seguro de mim. Logo eu, que achava que me conhecia tão bem! Você tem que entender que quando você conhece uma pessoa assim, você não pode prever suas reações. Talvez você tenha pensado que nunca gostei de você; que eu tenha te achado esnobe ou qualquer outra coisa do gênero. Talvez você ainda pense até hoje. E eu poderia desmentir isso a qualquer momento. Mas nunca fiz. É triste como tudo nessa vida parece ser um grande mal - entendido.
Mas, se por algum momento você me percebeu. Se por algum motivo notou que eu sempre pensava em você (mulheres sempre notam essas coisas mesmo...), e, ainda assim, nunca fiz nada...bom, não posso pedir paciência. Eu sei. Talvez um pouco de compreensão. Sabe, todo mundo acha que amor deve ser usado para te completar, para suprir algo que você não tem. Mas, eu acho isso perigoso. E sou muito cauteloso. Um dos meus piores defeitos, eu sei. E eu ainda tenho tantas coisas pra consertar em mim. Tanto ainda a ser definido, que não quero arrastar ninguém comigo nessa jornada. E você poderia se apaixonar por mim no meio de tudo isso. E, acredite, sou a pior pessoa para se apaixonar.

Foi tudo pra te preservar. Você pode falar que sou um medroso. Que gosto de ficar na minha ilha, seguro de tudo. E talvez seja verdade. Mas, tenha certeza que sei que, um dia, a ilha pode ser engolida pelo mar. Eu sei que um dia ela vai sumir. Mas, o que eu posso fazer até lá?
Pensar em voce.

André Marçal

Tuesday, January 29, 2008

A Caixa


A idéia original era muito simples: pegar uma caixa que foi parte de um presente e usá-la para colocar todas as cartas, cartões-postais, fotos e mensagens que diferentes pessoas escreveram para mim em momentos diversos da vida. Demonstrações de sentimentos na forma escrita. Isso sim, para mim, é o maior tipo de presente que se possa receber. Algumas pessoas preferem carros, o celular da última geração, Ipod, brinco de diamantes, etc. Eu prefiro saber o que voce representa para a pessoa que está te presenteando.

Seria uma espécie de tesouro pessoal, o mais valioso. No final da vida, não importa tanto a casa de dois andares no bairro de luxo que voce conseguiu comprar, e nem mesmo a quantidade de dinheiro que você deixou para os seus filhos. Mas, sim qual tipo de relação você conseguiu com as pessoas. O que de mais pessoal você implantou em outros indivíduos. Que tipo de pensamento é provocado quando outros pensam em voce. Bens materiais, com muito esforço, voce pode ter. Bens pessoais, às vezes, não. E essa última, pelo menos para mim, é muito mais indício que uma pessoa foi bem suscedida em vida do que a última.

Eu tenho essa fantasia (entre tantas outras) que, se algum dia eu for famoso, seria muito fácil se um escritor quisesse escrever minha biografia. Era so encontrar essa caixa perdida em meu guarda-roupa agora empoeirado e moribundo. Com isso em mente, fui relendo e colocando as cartas, fotografias e cartões...

E quem precisa de máquinas do tempo para voltar ao passado? Só é preciso de cartas e voce pode reviver estórias, sentir aquela inocência de volta, um pouco de nostalgia, arrependimento, saudades e frustração. Você percebe que a pessoa que você queria ser quando adolescente é bem diferente da que você é hoje. Que alguns aspectos são bem melhores, e que em outros você ainda precisa melhor. E outros...bem...não mudaram em absolutamente nada.

E a caixa, de repente, foi se enchendo e enchendo. De tal forma, que nada mais cabia, e ela não se fechava.
Uma nova caixa, maior, é necessária.

E em uma noite longa, tediosa e solitária de Sábado, em que seu celular não toca e você se vê sem perspectiva alguma, ter uma caixa cheia até a boca de pessoas na sua vida te faz sentir menos sozinho e mais vivo do que nunca.

André Marçal

Saturday, January 05, 2008

A Verdade


Sou uma verdade, desgraça diante do mundo.

Algo que não se quer e que não é querido.

Porque o que se quer é uma idéia.

Uma torre fálica colorida cuidadosamente construída;

e eu, eu sou só essa verdade inaceitável,

O escuro e imundo túnel da consciência.

A esplendorosa luz da criação.

ps: "Árvore da Esperança, mantenha-se firme" é o que está escrito no pergaminho que ela segura e Árvore da esperança é o nome da obra.



Paulo Eduardo Vasconcellos

Wednesday, November 28, 2007

Aniversário




Um grupo de adolescentes conversa à mesa ao seu lado, de forma animada. De repente, aquelas risadas e brincadeiras tão típicas dessa fase da vida (e que voce costumava fazer, também) começam a irritar profundamente. Afinal, o que pode ser tão engraçado assim? Qual o motivo de tamanha felicidade?


Em seu último aniversário, voce se dá conta que o número de pessoas presentes é menor do que o ano anterior (e, com choque, percebe que esse número vem dimunuindo gradualmente). Aquelas que te acompanham e te conhecem há tempos vão desaparecendo, e as novas vão substituindo esse espaço, começando aquele tão temido ciclo social.


E você se conscientiza de todas as oportunidades perdidas de ser realmente feliz; de realmente realizar algo válido; de encontrar amor...de se econtrar .
E conclui finalmente: isso é envelhecer.

E a vela apaga-se, mais um ano.



Escrito por André Marçal

Sunday, April 01, 2007

Ventos de mudanças


Um daqueles dias...daqueles que você senta em lugar qualquer da cidade, só para sentir a brisa no rosto, um dos únicos toques que você obtém há muito tempo, e percebe que o vento que te toca traz consigo ares de mudanças.

E você vai embora dali, e não tem mais vontade de voltar, porque o vento pode se tornar vendaval. Não que a possibilidade disso acontecer seja muito alta, mas você não gosta de mudanças mesmo. Não é a mudança em si que te assusta tanto, já que você é uma pessoa adaptável à diversas situações. Mas talvez o que te incomode tanto são as consequências do mudar. Não que você irá mudar, enquanto pessoa, pois, por mais que às vezes você deseje isso mais do que qualquer coisa no mudo, você é incapaz de de se esforçar para que isso aconteça.
O que angustia é ver a mudança dos outros. É ver outros mudando e se transformando em coisas melhores, e tudo o que você pensa é: tenho que mudar também. E você tenta.
E voce tenta.

E tenta.

E nem sempre consegue. Talvez um pouco. Mas não consegue acompanhar o ritmo um tanto frenético do vento que traz mudanças. E você fica com a sensação que não é possível. Se ao menos o vento carregasse todos de uma só vez...

E você fica com aquela sensação que, infelizmente, já está se tornando estranhamente famliar (como um vizinho incoveniente): a de que o seu papel na vida é o de espectador. O de que assiste....assiste ao vento, levando os outros.

Levando pessoas que você gosta.

Às vezes para bem longe. Às vezes, não...mas mesmo assim, fazendo-as mudar, mesmo que próximas. E no palco do espetáculo da vida dessas pessoas, o seu papel é, novamente, o de coadjuvante. Aquele que sai e entra de cena várias vezes. E aquele que gostaria de ter um espetáculo só para si mesmo.

Mas não tem, ainda....ainda....


Sempre "ainda". E você repara que....ainda....é a palavra que você mais repete. Sempre.

E pessoas vão mudando. Mudando para outras cidades. Outras mudando de vida. Casando. Tendo filhos. Outras mudando de personalidade. Umas, melhorando as que já possuiam. Outras, por outro lado, se tornando auto-destruitivas.

Mas, mudando de algum jeito.
E você? Vai mudar também?

Você não sabe a resposta, mesmo tendo certeza da inevitabelidade de acontecer algum dia. Tudo o que você sabe é o vento. Tudo o que você sente é o vento. É o de mais real que existe. Mesmo invísivel aos olhos, é quase tangível.

E voce sabe que é ele quem traz a mudança. E você fica com aquela esperança (mas daquelas que, por mais desacreditadas que estejam, você sempre acredita) de que um dia seja carregado por ele.

E para bem longe.






Escrito por André Marçal

Wednesday, February 14, 2007

Pedaços de Joana

Ao final da minha adolescência, lá pelos 18 ou 19 anos, achei que seria interessante dar um pouco da minha versão sobre essa fase da vida, e sobre o turbilhão de emoções que nascem daí. Disso, "Pedaços de Joana" nasceu. Ainda imerso nesse universo juvenil (não que não esteja nele ainda), foi aparentemente fácil escrever o conto (algo que não se repetiu até hoje, alguns anos depois...). Espero que gostem.
P.S: Agora que temos uma leitora, isso aqui será atualizado de forma mais rápida, ou até o momento em que a leitora em questão nos abandonar....
Pedaços de Joana

Ela havia crescido. Sim, com certeza era quase uma mulher. Pelo menos era o que a sua família dizia. E sempre perguntavam do seu namorado, que ela teimava em dizer que não existia.
- Como não? – perguntavam seus tios e tias – Uma moça tão bonita! Ah, eu acho que você está mentindo.
Não estava, mas nunca acreditavam. Na verdade, garotos ainda não a interessavam. O motivo, ela ainda não sabia. A única coisa a que tinha certeza era que alguma coisa estava errada. Talvez fosse com ela, ou talvez com a sua família. Mas algo definitivamente estava errado. E Joana só foi compreender quando sentiu o sangue ainda quente escorrendo pelos braços, pingando nos cacos espalhados pelo chão...

O fato era que, com catorze anos recém completos, Joana atraía olhares aonde quer que passasse. Alta para idade, seios fartos, cabelos negro-lisos, que despencavam até metade de suas costas, e olhos cor de mel, Joana tentava esconder com roupas largas e folgadas algo que já estava se tornando óbvio para todos: estava se tornando moça. Mas ser uma moçinha (como sua família a chamava) era tão chato! Ela nem podia mais fazer as coisas que adorava. Não podia mais assistir desenhos na televisão; não podia mais brincar de pique - esconde na rua (ninguém queria mais); e ainda teria que jogar todas as suas bonecas fora!
- Mas, por que eu não posso ficar mais com elas, mãe? – perguntou Joana um dia à mãe, quando foi surpreendida mexendo nas bonecas em seu quarto.
- Ah, Joana! Moças da sua idade não brincam mais de bonecas – disse, seca, a mãe - Por que é que você não vai na festa com as suas amigas?

Mas Joana nunca ia. E não entendia o que de tão especial as outras meninas da rua viam nessas festas. Ela não entendia. A única coisa que conseguia perceber era que, pouco a pouco, ia perdendo todas as suas amizades para os ficantes, rolos, eventuais namoros, carros, boates, roupas e bijuterias. E ela não conseguia se interessar por tudo isso; talvez não tudo de uma vez só. Às vezes, Joana achava tudo tão superficial. As vezes, achava que não fosse real. Mas sabia que a solidão que sentia nas noites mal dormidas era de verdade, pois sentia as lágrimas pelo rosto.
- Por que você não namora o Pedro, Joana? – perguntou, um dia, Ritinha, a única garota da rua que ainda conversava com ela.
- Ué, não sei.
- Ele tá doidinho em você. Super afim!
- Por que você namora o João? É por que você ama ele?
- Ai, claro que eu não amo ele, Joana! Cada pergunta!
- Então, por que você namora ele?
- Ué, não sei! Pra ficar com alguém. Pra....ah, você sabe...

E Joana ia vivendo assim. Sem saber responder as perguntas, e sem obter as respostas para aquelas que fazia. Ninguém sabia responder: nem suas amigas, nem seus pais, nem seus tios, tias, primos mais velhos, nem seus professores. Nenhum deles dava uma resposta satisfatória. E Joana estava cansada.

Diziam que já era moça, quase uma mulher. Mas se olhando, completamente nua, no espelho do banheiro, Joana não concordava. Ela sabia que a pessoa do reflexo era ela, mas não a reconhecia. Quem era aquela? Parecia uma total estranha. E Joana não quis mais aceitar a estranha do espelho. Com ódio, Joana esmurrou a imagem. Com estrondo, vidro se despedaçou.

Com o sangue quente saindo dos dedos, escorrendo pelos braços, e pingando no chão, Joana finalmente compreendeu. Era, sim, moça, quase mulher. Mas também era menina. Aquela menina que brincava saltitante pela casa; aquela que tinha sonhos de ser artista de tv; aquela que sua mãe fazia carinho no sofá, antes de dormir; aquela menina que era feliz.

E chorou como menina, enquanto juntava os cacos espalhados pelo chão. Aqueles que eram os seus pedaços. E com eles na mão, jurou que tentaria junta-los e começaria de novo.
Escrito por André Marçal

Friday, December 22, 2006

Início de uma parceria.

O dia de hoje está longe de acabar! Mas mesmo com a distância do fim de mais um dos trezentos e tantos que temos todos os anos, posse afirmar com certeza que foi um bom dia. E olha que eu nem precisei ficar acordado à noite pensando e argumentando comigo mesmo se as horas que eu deixei para trás haviam valido a pena ou nao (coisa que não canso de fazer).
Hoje recebi uma proposta de um amigo para dividirmos o blog que ele já possuía. Fato que me pegou de surpresa por dois motivos: Em primeiro lugar, porque vindo dele, que é realmente um escritor (diferente de mim, que apenas brinco com as palavras) , é um elogio. Não sei o que eu posso acrescentar em um blog que já é fantástico por si só. E segundo porque, diabos, nunca pensamos em fazer isso antes, se somos duas pessoas tão parecidas e que buscamos coisas tão parecidas na vida. Que bom que, pelo menos, alguém foi sensato o bastante para sugerir a idéia.
O blog Le Magnifique se propõe a isso a partir de agora. Um espaço para que duas pessoas tenham a oportunidade de se manifestarem e expressarem idéias nos mais variados estilos: contos, poesias, crônicas, músicas...

Para dar início, então, à essa parceria, eu começo com um conto que eu escrevi há um tempinho atrás intitulado "Viagem e Dilema". Não reparem o amadorismo da escrita (foi o primeiro...)
Espero que alguém aproveite!
P.S: O dia foi bom, também, porque recebi um presente vindo de longe. Mas isso é estória pra outro post.
Viagem e Dilema

Já se passava mais de meia hora que o ônibus estava atrasado. Sílvio já estava impaciente. Perdera a conta do número de vezes que havia se sentado e levantado no ponto de ônibus, agora lotado. Parecia à ele que a faculdade inteira estava ali. Todos com pressa, estressados, cheios do dia que tiveram e ansiosos para irem embora.
Lá no horizonte, no fim da avenida, um ônibus se aproximava. Todos olharam excitados, ansiosos. Sílvio se levantou do banco e observou que, finalmente, era a sua condução. Foi ultrapassando e cortando as pessoas paradas e frustradas por não ser a sua condução para casa, e embarcou.
Como sempre, o seu ônibus nunca se enchia, e sempre havia um lugar para se sentar. Desta vez não foi diferente. Sílvio atravessou todo o veículo e sentou-se no último banco, lá no canto esquerdo. Desde pequeno gostava desses "cantinhos", mas nunca compreendeu o motivo. Até mesmo nas aulas da faculdade, com freqüência, escolhia os lugares do canto.A viagem de volta para casa começou.
O caminho de todo o dia se repetia mais uma vez, porém ao contrário. Era sempre igual. Sílvio sabia de cor as casas e as ruas; as lojas e os prédios. O tempo parecia parar quando o ônibus andava.
A catraca rodou e uma garota veio se aproximando, cheia de cadernos e vestida com um uniforme escolar. Ela se sentou no outro canto, próximo de Sílvio, no outro "cantinho". A garota estava com os olhos inchados e vermelhos , provavelmente conseqüência de uma crise de choro. De vez em quando, emitia uns soluços sufocados pela vergonha. Sílvio olhou a menina com curiosidade. Na verdade, sempre fora curioso; era sua característica marcante. O que será que aconteceu?, pensou Sílvio. Será que ela havia tirado nota baixa? Ou então bombado em uma matéria? Provavelmente foi isso. Sílvio se lembrava de muitas pessoas que choravam por causa de notas em seu tempo de escola.
A menina era jovem. Deveria ter no máximo dezessete anos. Cabelos lisos e louros, seu rosto fino estava inchado; os olhos castanhos avermelhados. Em outros momentos deveria ser bonita. Mas não agora, seu sofrimento era visível. De repente, ela teve um crise de choro. Colocou sua cabeça entre as mãos e chorou, chorou com vontade.Sílvio começou a ficar intrigado. A coisa era muito mais séria do que ele imaginara. Talvez ela houvesse terminado com o namorado à pouco, alguém que ela gostasse muito. Sílvio teve uma vontade forte de intervir, perguntar o que acontecera; talvez falar o que se passava, ajudaria a garota. Não, melhor não, concluiu Sílvio. Não era problema dele. Não queria passar por intrometido.
De repente, um celular tocou. A garota abriu o seu estojo escolar, pegou o aparelho, e, ao ver o número no visor, começou a chorar ainda mais.
- Ah! Cíntia! Cíntia!- disse ela aos prantos ao telefone; as lágrimas escorrendo pelas bochechas. - Ele morreu, Cíntia! Morreu! O Edú morreu, Cíntia! Eu tô com o coração tão apertado!
A menina, nesse momento, atraiu olhares curiosos das poucas pessoas no ônibus. Sílvio escutava com atenção e pesar.- É, Cíntia!- continuou ela, o desespero na voz mais acentuado do que nunca.- Acidente de carro!....Eu tô sozinha no ônibus...tá ...tchau.....A garota desligou o celular e chorou ainda mais.
Então, alguém havia morrido, pensou Sílvio. Alguém muito querido, provavelmente. Mais do que nunca agora, Sílvio queria intervir, conversar com ela, ao menos dizer alguma coisa. Não. Era mentira. Sua vontade era de se levantar e abraçá-la, dar algum apoio, consolar uma pessoa que estava sofrendo tanto. A idéia de ficar sentado no seu canto, atormentava Sílvio. Ele teria que fazer alguma coisa, qualquer coisa. Mas, fazer o que?. Afinal, a menina acabara de perder um ente querido, sabe-se lá a sua reação. E Silvio sabia que, no fundo, não tinha coragem para tanto. Era melhor não fazer nada mesmo, concluiu ele. Não era seu problema.
Assim, então, a viagem prosseguiu. A garota chorando, agora em silêncio, e Sílvio fingindo que aquilo não o incomodava. Até o momento em que ela se levantou, puxou a cordinha e esperou o ônibus parar para descer. Com o veículo parado, Sílvio observou a garota completamente atordoada atravessar a rua. Tão atordoada, que nem reparou no carro buzinando, no seu freio queimando, nem mesmo no barulho estridente do atrito com o asfalto, muito menos ainda nos seus ossos e órgãos sendo dilacerados...Nem mesmo na sua última respiração.E Sílvio foi embora para casa, pensando. E dormiu com um sentimento de culpa que nunca o deixaria em paz.

Escrito por André Marçal