Saturday, October 24, 2009

Realidade ficcional


Ele era do tipo que ensaiava algumas histórias. Pegava a caneta, abria o caderno e tentava preencher as linhas com alguma coisa que fosse relativamente interessante.

Era um apaixonado por ficção. Ele admirava todos os que conseguiam deixar o enredo tão interessante, a ponto de negligenciar todos os aspectos da vida só para saber o que vai acontecer em seguida.

Ele não via tanta graça na realidade. Tanto na do mundo e, principalmente, na sua própria. Tudo parecia tão mais interessante e intenso na realidade ficcionada! Mais cores, mais música, mais paixão...Na vida real, tudo em preto e branco, silencioso, sem amor...

Um dia, disseram a ele que a solução para isso era escrever exatamente sobre aquilo que ele não vivia. Viver a vida através das histórias. Ou ainda: contar aquilo que ele viveu e melhorar através da escrita.

E o melhor disso tudo era que ninguém jamais saberia a verdade. Ninguém conseguiria enxergar o limite entre a verdade e a ficção. Só ele. E, se a vida parecia não ter mistérios, esse seria o dele.

Só dele.


André Marçal

Friday, October 16, 2009

Desentendimentos

Certa vez disseram que ele deveria ser sempre verdadeiro. Sempre que possível, ele deveria dar opiniões sinceras sobre qualquer assunto. E se perguntassem sobre o que ele mais amava, ele deveria responder com o maior dos entusiasmos. Porque amor deveria ser contagioso. Deveria inspirar as pessoas. Amor teria que ser compartilhado, não?

Mas...quanto mais ele vivia, mais ele percebia que amor era algo em falta. Ao que parecia, as pessoas não amavam nada. O que existia era uma confusão. Era amor disfarçado de carência, falta de auto-estima. Algo momentâneo.

E que se mostrar verdadeiramente era campo propício para desentedimentos e incompreensões.

Ele leu em um livro: "There is, he thought, so little love in the world". E ele concordou.

André Marçal

Friday, October 09, 2009

Rasante



De repente, ele se dá conta que existem dois tipos de pessoas: aquelas que, por alguma razão incompreensível, tudo gira ao redor e que são capazes de fazer tudo do mais incrível acontecer; e aquelas que são exatamente o oposto.

E, por mais que ele negasse, por mais que ele tentasse esconder (principalmente de si mesmo), chega um momento na vida de todos que negação é um luxo, pois o tempo passa rápido, e a juventude vai indo embora mais depressa do que se espera.

Ele pertencia ao último grupo de pessoas.

Mais do que isso, ele percebe exatamente o tipo de pessoa que ele é. Idealizações são infantis, e embora a realidade possa parecer dura no começo, ele consegue notar uma certa liberdade nisso tudo.

Sem mais falsas esperanças. Sem mais expectativas exageradas. Tudo o que resta a ele, agora, é uma vida em que a beleza se encontra apenas naquilo que ele é capaz.

Um voô com as suas próprias asas, mesmo que seja apenas rasante.

André Marçal

Saturday, September 19, 2009

Qual segredo?


Ele observava a atitude de todos. Gostava particularmente de analisar as atitudes perante a vida daqueles que ele mais admirava. Ele esperava aprender alguma coisa valiosa dessas pessoas. Queria entender como é que elas conseguiam fazer tudo aquilo que elas sempre desejavam sem obstáculo algum, sem auto-sabotagem alguma, sem dificuldades auto-impostas. Porque ele não tinha mais idéia de como ser assim. Já andava cansado das tentativas, todas mal-sucedidas, de ser exatamente dessa forma: um verdadeiro explorador da vida. Destemido e totalmente determinado. Mas, sempre existia alguma coisa...algo misterioso que o impedia. E ele queria descobrir qual era o segredo.

Ele buscava, então, em todas essas pessoas que eram o oposto exato dele.
Ás vezes, ele quase chegava a uma conclusão definitiva. Pensava que, em muitas coisas dessa vida, simplesmenta não havia sentido algum. As coisas são porque são. Nada mais do que isso. Talvez essas pessoas não tenham tantas idealizações românticas sobre tudo, e consigam enxergar uma certa beleza nas coisas mais simples da vida.

E talvez ele fosse explorador, sim. Nem sempre dos mistérios da vida, como ele sempre desejou. Mas, da alma. E quem sabe alguém também o observasse, tentando aprender alguma coisa...?

André Marçal

Wednesday, September 16, 2009

Um diálogo

Você me disse que eu era um cara especial, e que queria muito que eu encontrasse alguém.

Eu disse que esse alguém poderia muito bem ser você.

Você mudou de assunto, e nunca respondeu...



André Marçal

Friday, September 11, 2009

Erase and Rewind


Acho que gostei de você desde a primeira vez que te vi entrando por aquela porta. Lembro dos seus olhos azuis...eram tão grandes! Nunca tinha visto desse tamanho. Te olhava de lado, tentando disfarçar. Fingia tentar enxergar alguma coisa invisível na parede, mas era você que eu queria olhar.

Tímido em demasia, me surpreendi quando você veio falar comigo. Ainda mais impressionante foi perceber como era fácil conversar com você, e como me senti confortável ao seu lado. E em uma semana de convivência, pude perceber que se tratava de uma pessoa especial. Toda a sua atenção, gentileza, curiosidade. É estranho como em tão pouco tempo uma única pessoa pode ter tanto significado em sua vida.

Eu tentava me enganar. Tentava racionalizar. Mas, quando você ficou fora por três dias, não havia mais saída. Eu havia me apaixonado, e não adiantava culpar os sentimentos e pensamentos ambíguos como eu sempre costumava fazer. Uma coisa é sentir falta de alguém. Outra completamente diferente é desejar que ela esteja ao seu lado em quase todos os momentos, nem que seja pra compartilhar aqueles dos mais sem importância. Porque com você sempre foi assim: acontecimentos dos mais banais se transformavam em aventuras memoráveis. Por isso, até hoje sinto tanto a sua falta.

Minha auto-suficiência (ah, sempre ela) não me deixou que você soubesse disso tudo, apenas metade. E agora que você foi embora de vez é que fui compreender a dimensão de tudo.


É triste só se dar conta da importância de alguém quando ela vai embora...É ainda pior perceber a sua própria impotência em relação ao tempo: não existe volta, nem mesmo um dia a mais pra que tudo fosse diferente...



André Marçal.

Monday, July 06, 2009

Embora


Ele vai embora
Esperando por algo extraordinário acontecer
Ele vai embora
Mesmo não sabendo muito bem por quê

Ele vai embora
E nenhum coração partido
Nenhum beijo apaixonado de despedida
Nenhuma mão na janela estendida

Ele vai embora
Procurando alguma coisa a ser
Ele vai embora
Ter alguma coisa a merecer

Ele vai embora...
Sonhos a realizar
Felicidade a encontrar

Embora...




Wednesday, May 20, 2009

Ela

Ela queria amar, mas que fosse algo de verdade. Amor mesmo, daqueles que ela lia nos romances da Jane Austen. Não as coisas superficiais que ela já havia tido experiência: amor de plástico, ela dizia. Não as juras de amor ensaiadas; não a obrigatoriedade de ficar ao lado da pessoa; não mais a mesma dúvida se é esse ou não o que ela gostaria de estar. Ela queria experimentar a plenitude do sexo. Não mais aquela insatisfação com os rapazes que ela já havia tido experiência. Talvez com alguém que se amasse, de fato, fosse diferente.

Queria tudo isso e mais. Coisas que nem sabia expressar direito. Só sabia que queria.

Mas...havia algo que a impedia. Podia desconhecer os caminhos para amar, mas a única coisa a que tinha certeza era que a dor e a mágoa poderiam ser maiores do que ela. Maior do que poderia suportar. Amar alguém e perder a pessoa. Amar alguém e não ser correspondido.

Mas sabia, também, que uma vida sem uma história de amor não era vida. E, enquanto isso, ela seguia com a única certeza que tinha: queria amar.


André Marçal

Sunday, February 15, 2009

Pertencer




Daí você cresce e amadurece um tanto mais rápido do que esperava. E, apesar das evidentes vantagens de todo esse complicado processo, de alguma forma as desvantagens acabam se destacando.

Daí, você vai ao mais novo lugar badalado da cidade, e não consegue conter uma sensação das mais estranhas: de que, de repente, alí não é muito o seu lugar. Tudo soa tão esquisito, fora do lugar, meio caótico...alguma coisa ali não faz muito sentido. Talvez seja a música que não te agrade tanto; ou o esforço troiano de se fazer ouvido; ou as pessoas que não são lá das mais interessantes. A coisa mais evidente que você consegue perceber é um sabor de artificialidade pairando no ar. Tudo parece ser um grande desfile de moda. As pessoas se comportam como se estivessem naqueles comerciais infames de cerveja. Ou em um clip de Hip Hop. E, apesar do esforço, você não consegue se divertir.

Daí você entende a razão pela qual as suas fotos não têm tantas pessoas reunidas. E porque seu celular só toca quando o despertador dispara.

A velha questão volta a rondar a sua cabeça: até que ponto a qualidade se sobrepõe à quantidade?

André Marçal

Thursday, February 05, 2009

Todos os lugares

Ando cansado de te ver em todos os lugares. Cansado de ver seu rosto, ao longe, em todas as que são parecidas com você. Cansado de ver seu cabelo caindo em ombros que não são os seus. Cansado dessa sensação que mistura excitação e frustração em um milésimo de segundo, quando percebo que não é você.

Cansado do impulso de te ligar de repente, só para ver sua reação. Cansado de ponderar entre sair por aí te procurando ou deixar as coisas como estão. Cansado de me pegar desejando esbarrar com você em todos os lugares que eu vou.

Cansado de pensar em você.
Em saber que não superei nada em relação a nós dois.


André Marçal.

Monday, February 02, 2009

Especial

Ele saía pelas ruas sozinho sem destino aparente. Gostava de perceber um certo caos que controlava todas as coisas: o semáforo mandando em todos os carros; os vendedores chamando a atenção dos pedestres para os seus produtos; os pássaros alçando voôs ligeiros por causa da pressa das pessoas...Ele gostava de observar tudo, tentando não passar nenhum detalhe desapercebido.

Ele gostava de fazer suas refeições sozinho. Apreciava a forma como as pessoas interagiam umas com as outras. A mãe cuidando dos filhos. Os irmãos brigando por um motivo fútil. Amigos jogando conversa fora. Gostava particularmente de ver os namorados trocando beijos apaixonados; discutindo o que ele imaginava ser planos para o futuro ou juras de amor eterno.

Mas, era particularmente nessas horas que ele começava a sentir uma certa inquietude, um princípio de tristeza...uma certa melancolia o abatia, e parecia que a esperança havia fugido sem deixar vestígios. Ele tentava buscar dentro de si explicacões para suas atitudes misteriosas, as quais o deixavam sempre a margem de todas essas pessoas. Parecia a ele que nunca o seu momento chegaria. Nunca deixaria de observar e seria observado ao invés.

E ele pensava em todas as coisas em que ele suspeitava ser especial, diferente. Naquilo que o distinguiria de todas as outras que ele tanto observava. Ele pensava em todas as fotos que tirava por suas andanças por esse mundo, mas não conseguia deixar de achar todas medíocres. Pensava em todas as coisas que escrevia, mas nenhuma o agradava. Pensava em todos os filmes maravilhosos que assistiu, mas se se sentia triste por ser incapaz de escrever algo semelhante. Pensava em todas as músicas que eram o seu vício saudável, e se frustrava por ter quase certeza de que esse não era um de seus talentos.

Ele sabia que se existia uma verdade incontestável nessa vida, era a de que, invariavelmente, alguém era sempre melhor de que ele.
Ele sabia sobre a outra verdade, mas ainda era cego à ela...já o haviam alertado, mas ele ainda não conseguia enxergar o especial no que há de mais banal nessa vida.

Enquanto isso, ele saía por aí, observando....

André Marçal

Monday, January 26, 2009

Disco Furado


É como aqueles velhos LP's arranhados. A minha vida anda parecendo um disco furado. As mesmas músicas de sempre, os mesmos filmes de sempre, os mesmos papos de sempre, mesmas pessoas, mesmos problemas, mesmas insatisfações, mesmas impossibilidades de mudanças, mesmas inabiliades sociais, mesmos desejos, mesmas fantasias, problemas, salário, caminhos, ônibus, exercícios físicos, corpo, cabelo, espelhos, trabalho, shoppings, parques, cidades, viagens, fugas...

Mesmos posts de sempre.

O disco pode ser diferente. O som anima e, por alguns momentos, tudo é novo e excitante. Mas, vem a agulha se encontrar com o arranhado, e tudo é repetição de novo. Mesmas músicas, mesmos papos, pessoas, problemas....


André Marçal

Friday, January 09, 2009

Erro

A primeira decisão substancial de sua vida e você se sente orgulhoso, finalmente. Mas, não consegue evitar aquele sentimento tão familiar quanto um velho amigo de que, talvez, tenha demorado um pouco demais. Afinal, apesar de todos ainda te chamarem de garoto e sua aparência ainda ser jovial, a realidade é que os anos insistem em passar rápido demais para o seu gosto. E não existe nada que você possa fazer para impedir isso. Lamentar-se já se tornou um tanto cansativo e inútil. Por isso, pela primeira vez, você age de forma impulsiva e inconsequente.

E é bom. Você se sente bem. De alguma forma, a sensação é de que existe uma saída para o labirinto de sua vida. O túnel não é tão escuro assim. É claro que existe a grande possibilidade de nada dar certo; de que absolutamente nada do que você imagine acontecer de fato aconteça; de que as coisas continuem da mesma forma, e que apenas o cenário mude.

Pessoas podem acusar que tudo não passa de fuga. Você prefere acreditar que seja estilo de vida diferente e mais experiência de vida. De qualquer forma, o que quer que aconteça, pelo menos você poderá falar que erro foi seu. Você cometeu sozinho. E vai ser isso que você vai contar para todo mundo na volta: aonde errou.

E quantas pessoas não têm ao menos coragem de errar?



André Marçal


Sunday, January 04, 2009

Nunca é Tarde Demais


- Vê se vá comer lá fora! - dizia a minha mãe farfalhando seu vestido ao andar e logo depois batia a porta atrás de mim. Eu ouvira sua voz berrando pra mim enquanto descia a escada, mas somente seu som abafado e fugaz. Eu estava deliciado demais com o cheiro do doce derretendo sobre minhas mãos salpicadas de terra. Eu pressentia, eu sabia que aquele era um momento memorável, lá no fundo eu sabia, ainda que naquela hora eu não desse maior crédito a tudo.
O cheiro era bom demais! Lucinha fazendo uma bolota de terra, a luz do sol minguando lilás lá longe, mosquitos movendo-se tontos sobre os nossos olhares cansados. Nós nos entreolhamos por um brevíssimo momento para voltarmos nossa atenção para o doce. Lucinha largou de pronto a terra e os brinquedos, limpando com muita feminilidade seus dedos sobre o vestido curto. Agora só pensávamos em devorar ferozmente aquele doce. Só de olhá-lo podiamos ouvir nosso estômago pescando o prazer da fartura. Éramos levados por nosso instinto animal. Para duas crianças pobres e caipiras nós até que podíamos dizer que tínhamos o necessário: o desejo, os sonhos, a indiferença infantil com o mundo e é claro, um amplo e misterioso banquete chamado "vida" - e tão gostoso que ele era que apesar das nossas apostas de corrida de bicicleta, escaladas em abacateiros e conflitos internos sobre a difícil decisão de espetar ou não aquele cacho de abelhas, pareciam percorrer rápido demais as vinte e quatro horas do dia. E no final de tudo, a nossa trágica e dramática relutância de ir para a cama era completamente esquecida com um simples beijo de boa noite na testa.



Mas eu estava lá, ao pé da escada, vislumbrado com o doce na minha mão. Contrariado, acabei dividindo o doce com Lucinha, que comeu tudo em um único segundo, preferindo descobrir o sabor pelos restos de sebo que lambeu dos dedos. Eu não, eu decidi comer bem devagar. Pra começar, coloquei a ponta da língua. Ainda estava tão quente que fiquei assustado ao pensar que minha irmã poderia estar queimando por dentro enquanto a metade dela descia goela abaixo, quando na verdade não aparentava nehuma amostra de sofrimento. Meus dedos calejados de moleque pareciam não ser tão frágeis quanto os órgãos inferiores. Decidi então dar-lhe uma esfriada. Eu sacodia a barra pelo vento enquanto sentia seu aroma se espalhar no ar e ser sugado por todos os poros do meu corpo, até que se arrepiassem os meus cabelos da nuca.



- Você não vai comer não? - Disse Lucinha pendendo a cabeça para esquerda e levantando os olhos com desdém. - Tá muito quente... - Disse eu, distraído e pensando na burrice de minha irmã em ter comido tudo de uma vez.



Cansado de sacudir pra lá e pra cá, decidi encostar o doce na ponta dos lábios. Salivei. Mas ainda estava quente. Aquilo me deixou irado. Fiquei automaticamente vermelho, não só porque queimara os lábios, mas pela humilhação de ouvir a gargalhada histérica de Lucinha, que apontava pra mim, como se eu fosse um frangote. Na revolta de ter sido humilhado por um doce e uma pirralha, e ainda com o orgulho ferido de ser menos resistente que uma menina gulosa, decidi colocar tudo de uma vez na boca. A descrição do que veio depois é muito difícil.

Durante os dois primeiros segundos de doce na boca eu não senti nada. No terceiro senti que todo o seu aroma fora quebrantado pela saliva. Decidi comer então, mas aí veio o maior problema. O doce ainda estava tão quente que na minha tentativa de morder para sentir o gosto, acabei queimando a bochecha e a língua com a saída de seu líquido interno, o que me fez cuspir o doce na terra. Era o fim! Uma derrota para um rapazinho. Eu me recuperava da queimadura enquanto via Lucinha cair no chão completamente descontrolada de riso, se esperneando como se fosse um macaco louco. O doce estava no chão misturado à terra. Fiquei petrificado! Não acreditava que iria perder aquela oportunidade! O meu doce predileto - que minha mãe só fazia no dia de Natal, pois não tínhamos muito dinheiro para os ingredientes - estava cheio de terra. Olhei em volta e vi uma fileira de formigas saindo de baixo de uma folhinha de flor que carregavam e indo diretamente para o doce. Atrás de mim ouvi o Eistein, o cachorro capa preta do meu pai farejando e contornando a varanda em minha direção. Não podia deixar o doce se perder, mas ainda estava com a língua em chamas. Corri para a torneira que ficava por cima de um canteiro de flores, lavei a boca rapidamente e corri o máximo que pude, disputando o tempo com as formigas e com o capa preta do meu pai. Quando eu já estava a um metro do doce só pude ver cachinhos de cabelos castanhos voando sobre o meu rosto e roçando o meu nariz. Não eram meus, levei um empurrão e caí para trás, confuso. Lucinha havia chegado primeiro.

De uma só vez ela me mostrou a língua e comeu a barra inteira, pra depois lamber aqueles dedos sujos diante dos meus olhos. Numa mistura de ódio e horror, corri pra dentro da cozinha deixando um rastro de barro atrás de mim, e com lágrimas sobre meu rosto sujo implorei por um novo doce, quando mamãe virou com uma expressão severa e disse: - Nada disso! Você tem que começar a ser mais agradecido.

E então, foi lá, parado em pé de frente para a minha derrota. Parado de frente para o complô do destino contra mim, estupefato e impotente perante as duas razões da minha vida que, eu posso dizer, eu aprendi o que é ser homem.

Paulo E. Vasconcellos

Monday, December 29, 2008

Porta Trancada


Você me fez pensar em coisas que eu nunca pensei. Você me fez sentir coisas que jamais imaginei poder sentir. Eu estava fechado a tudo isso, mas de alguma forma você conseguiu destrancar a porta. E foi por esse motivo que me peguei, de repente, pensando em você o dia todo. Querendo te conhecer mais a cada nova conversa. Descobrir novas facetas de sua personalidade tão iluminada.

Ainda soa estranho, muito estranho. Mas da estranheza boa. O futuro a ninguém pertence. Pode ser que eu tenha confundido tudo. Pode ser que nada seja correspondido. Talvez um amizade seja tudo o que eu necessite. Carência emocional sempre foi meu ponto fraco.

Mas, de uma forma ou de outra, me surpreendo duplamente toda vez que penso em você: por ter despertado esse mosntro há muito adormecido; e por ser justamente você, de todas as pessoas. Não sei do que gosto mais: de você ou do enamoramento por meu estado. Só espero que dure. Só espero que não vá embora logo...

André Marçal

Wednesday, December 17, 2008

Simplicidade


São coisas pequenas, quase insignificantes, mas em uma vida em que o marasmo parece se arrastar como uma cobra traiçoeira, se revelam da maior importância. Tudo o que parece restar é se agarrar nelas...afinal de contas, o que mais se pode fazer?

É assim mesmo, talvez. As pessoas sempre esperam as coisas mais extraordinárias de suas vidas, mas o que de fato ocorre é bem diferente. Talvez realmente exista beleza nas coisas mais simples. Amelie Poulain deve ter razão.


É uma cantada sincera de alguém na rua; é um elogio do seu chefe; uma nota boa em uma prova ou trabalho; um bilhetinho da pessoa amada ou amigo do peito....uma medalha simbolizando o reconhecimento que você tanto procura.

São todos esses momentos em que você tenta se segurar. Na simplicidade mais pura da vida. É essa a sensação que você não deixa embora...é o seu combustível. E você invoca esse sentimento de volta sempre quando tudo parece sem esperança demais só para te lembrar que, às vezes, tudo o que você busca está bem ali na sua frente.

André Marçal

Wednesday, December 03, 2008

Beleza

Diziam que ele era bonito. Gostavam da cor do seu cabelo e do formato do nariz. Demorou um pouco até ele começar a acreditar nos elogios. Ao se olhar no espelho, hoje, ele consegue ver uma certa beleza aqui e ali. Não como o enxergam de fato, mas pelo menos ele tem consciência do limite de sua beleza.

E ele era admirado por ser jovem, bonito e inteligente. Para alguns, a combinação perfeita. Outros se perguntavam: o que mais alguém poderia desejar da vida? Os mais velhos, saudosos de suas épocas (e arrependidos pelo o que não fizeram), sempre lhe davam conselhos. Diziam a ele que deveria aproveitar mais, sair mais, namorar mais, ter mais amigos. Pois tudo passa depressa demais. O tempo é sorrateiro. As pessoas da idade dele ficavam intrigados. Não entendiam a razão pela qual ele era tão inquieto. Não sabiam identificar o que ele tanto buscava. Logo ele, que tinha naturalmente o que todos queriam.

Mas, ninguém...ninguém sabia que beleza não é nada. Só ele. Ele tinha noção exata de que a beleza nunca o ajudou em muita coisa. Não ajudava a ganhar um centavo a mais; A ter um emprego melhor; A ter mais ou menos amigos; A encontrar amor verdadeiro...a ter paz de espírito. Ser bonito nunca o livrou de sentimentos absolutamente humanos; Nunca o livrou de inseguranças; Jamais o deixou livre de questionamentos. Ser bonito nunca foi passaporte para a felicidade e nem viagem só de ida a um êxtase infinito.

O que ele realmente sabia é que beleza é efêmera. Daqui a alguns anos acaba. E tudo o que fica é a saudade de um tempo em que as possibilidades pareciam infinitas.
E o que as pessoas não sabiam é que ele trocaria toda a sua beleza por pelo menos um dia em que possibilidades se transformassem na mais pura e deliciosa realidade.


André Marçal


Sunday, November 23, 2008

Nossas Fases


Acordei hoje de maneira diferente. Não foi pelas obrigações do dia, nem pelo despertador-celular. Não, hoje eu acordei vivo! Livre não só do profundo sono da noite, livre não só de sonhos-minuto, daqueles que duram o minuto necessário para que seja apagado pela memória quando se abrem os olhos e que de repente, sabe-se que sonhou, mas não o quê. Você deve estar se perguntando o que tem de tão raro nisso. Você deve estar me olhando com desdém. Mas você não sabe o que é ser vulnerável ao próprio espírito. Você não sabe o que é estar aprisionado dentro da própria alma e durante anos mal conseguir falar. Estive por tanto tempo concentrado no fundo de mim! É tão difícil, para alguém que vive no próprio estômago, digerir as turbulências do mundo!


Tenho que contar essa história. Passei anos sortido na timidez e podado por navalhas invisíveis. Travei batalhas contra os meus desejos em nome de minha própria reputação. E cego de mim mesmo (não vi meu reflexo no espelho), passei a me alimentar da visão dos outros sobre mim. E como resultado sombrio da equivocada refeição, passei eras sob o domínio de doutrinas macabras desse Deus de duas caras chamado "amor". Sob seu comando me despi e me embriaguei de corpo, até a última gota. E então, sedento e incompleto, tentei buscar mais e mais no fundo do poço. Porém, lá em baixo, só encontrei uma velha senhora chamada "ironia". Ela também tinha duas caras, uma delas era bem triste e a outra alegre. Mas ao que parecia elas gritavam a mesma palavra, de joelhos, como que suplicando: Verdade! Foi então que, cansado, decepcionado e confuso, dentei me machucar e acabar com tudo! Bati a minha cabeça contra as duas daquela pobre senhora, tudo de uma vez! E fez um eco. O eco espiritual que perdurou por todas as manhãs! Desde então só consegui acordar pelo eco, sonolento e abafado, que sugeria que um dia no passado eu havia vivido, e que agora, estar dormindo ou acordado, para mim, não fazia a menor diferença. Desde então só consegui acordar quando ficava com sono e tentava ir dormir.


Mas você poderia erguer a cabeça e me dizer que com você é diferente, que sonha todos os dias e lembra de todos os sonhos nos mínimos detalhes, e que além disso, tem o hálito das mais perfumosas rosas quando acorda e, ainda, que sua disposição matinal emerge como um foguete ao surgimento do primeiro raio de sol do dia. Você poderia dizer ainda que com o primeiro raio de sol a atravessar a cortina do quarto, toda a sua vida ganha sentido, e que você fica tão cheio de sentido e de vida que nem sequer os nota. Já basta para você, simplesmente acordar cantando e bombardeando o mundo com impressões rápidas e atenções certeiras. Porque para você não existe o silêncio da vulnerabilidade de ser. Você procura agir pelas bordas do seu corpo, dançar na direção do vento, gritar com força contra a maré sem necessidade, como se quisesse testar as forças da natureza; você pode fazer amor com a negligência ao futuro. Você sabe que não sabe e que é melhor assim. Você sabe que o conhecimento só é bom se puder ter forma, e que a forma só se torna agradável com a nostalgia. Como deve ser bom ser você e não querer ser outro alguém. Como deve ser bom ressoar de maneira diferente a cada dia que se passa. Mas hoje, hoje, eu sou você. E você?

Paulo E. Vasconcellos

Friday, November 07, 2008

Caminhos separados


É aquela energia que vem de algum lugar misterioso. E te dá aquela vontade de todo o tipo: de bater aquele papo descontraído; sair em plena terça feira à noite; ir ao cinema pelo menos duas vezes na semana; ir ao novo lugar badalado da cidade; discutir profundamente assuntos diversos; tomar sorvete em uma tarde de calor; ir a um show de uma banda que você gosta; caminhar por um parque bonito sem hora de ir embora; beijo demorado; pegar o carro e viajar para um estado do país nunca visitado; nadar na piscina de um clube; mar e areia!; jogar voleibol uma manhã inteira; ler um bom livro em uma tarde preguiçosa; assistir ao filme favorito mais uma vez; ouvir música no volume máximo; conhecer pessoas novas...enfim, viver.

Energia da vida. E tudo parece ser tão bom e diferente nesses dias. É como estar apaixonado. Tudo tem mais cor. Nada parece ser entediante, inclusive as coisas mais mundanas. E você quer compartilhar tudo isso com alguém, com o mundo. É a paixão pela vida.

Mas...as pessoas parecem estar em outros trilhos. Estão em caminhos diferentes do seu. Uns imersos em problemas que você não pode resolver. Insatisfações que você não pode satisfazer. Outros simplesmente em fases que você ainda não alcançou. Você não sabe o que fazer. Só sabe que a paixão pela vida não pode ser a de carnaval. Tem que durar mais, muito mais.


André Marçal.




Sunday, October 26, 2008

Lemon Tree

Ouvi essa música ontem pela milésima vez e percebi: A felicidade é um minuto que termina antes do tempo.


When I was just a lad of ten, my father said to me,
Come here and learn a lesson from the lovely lemon tree.
Don't put your faith in love, my boy, my father said to me,
I fear you'll find that love is like the lovely lemon tree.

Lemon tree very pretty and the lemon flower is sweet
But the fruit of the poor lemon is impossible to eat.
Lemon tree very pretty and the lemon flower is sweet
But the fruit of the poor lemon is impossible to eat.

Beneath the lemon tree one day, my love and I did a lie
A girl so sweet that when she smiled the sun rose in the sky.
We passed that summer lost in love beneath the lemon tree
The music of her laughter hid my father's words from me:

Lemon tree very pretty and the lemon flower is sweet
But the fruit of the poor lemon is impossible to eat.
Lemon tree very pretty and the lemon flower is sweet
But the fruit of the poor lemon is impossible to eat.

One day she left without a word. she took away the sun.
And in the dark she left behind, I knew what she had done.
She'd left me for another, it's a common tale but true.
A sadder man but wiser now I sing these words to you:

Lemon tree very pretty and the lemon flower is sweet
But the fruit of the poor lemon is impossible to eat.
Lemon tree very pretty and the lemon flower is sweet
But the fruit of the poor lemon is impossible to eat.

Paulo E. Vasconcellos